segunda-feira, 6 de maio de 2013

O próximo dia de David Bowie



Um dos melhores discos dos últimos anos
ART ROCK MAGAZINE

Tem alguma coisa em Heroes que não agrada a David Bowie. Talvez alguma faixa que se arrependeu de ter gravado, que na época passou desatento. Como se sabe, sabe-se muito pouco sobre o novo disco de Bowie. Uns dizem que ele está nostálgico, voltando ao passado. Heroes contém uma das faixas mais atmosféricas da carreira do Camaleão, Moss  Garden, com participação do lisérgico Robert Fripp (ex- King Crimson). O disco, juntamente com Low e Lodger, fez parte da fase Berlinense de Bowie. (Sabe Deus o que isso quer dizer, ironicamente falando). Mas foram três álbuns produzidos e gravados quando Bowie residia na Alemanha na segunda metade dos anos de 1970. Berlim nessa época não era o melhor lugar para se morar, uma vez que a Alemanha ainda ressentia dos danos provocados pela 2ª Guerra e o cheiro do nazismo ainda dava para ser sentido no ar. A faixa Neuköln (Nova Colônia), de Heroes, procura transmitir um sentimento, uma fala, talvez, uma denúncia...

The Next Day não caminha para esse lado, mas a parte mais intrigante é em relação a capa. Há uma pista aí. O rótulo branco sobre a capa de Heroes e o título “Heroes” riscado levam a impressão que The Next Day é uma substituição do álbum de 1977; talvez uma releitura dele.

Há semelhanças em todos os sentidos entre os dois álbuns, guardadas as diferenças de épocas. Há um dado curioso em Heroes não compactuado em The Next Day: Heroes traz fotos de um Bowie em crise, perturbado enquanto The Next Day traz apenas uma foto de um Bowie convicto, sério, “sóbrio” e somente em segundo plano, pois no primeiro a foto aparece com o quadrado branco sobre ela. Isso naturalmente não é à toa.

Não é fácil compreender as fases de David Bowie. Durante toda a carreira ele mudou de “personagem”, de estilos, procurou se achar em cada momento em que a música se inseria no ambiente em que estava, mas sempre sem perder a sua identidade. Bowie sempre esteve um passo adiante de seus contemporâneos. Produzindo música que expressam o momento vivido. The Next Day é mais uma obra de Bowie. Um disco recheado de surpresas, denso, encorpado que traz consigo uma história que talvez só seja desvendada no futuro.

Quem sabe, o próximo dia?

sábado, 26 de janeiro de 2013

Um clássico que atravessa gerações

Capa de Demons and Wizards

ART ROCK MAGAZINE

Há uma máxima com as bandas dos anos 70 de que sempre o primeiro disco é o melhor de todos os demais. Evidentemente isso não passa de uma bobagem, basta lembrar de Led Zeppelin, Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e tantas outras bandas. Alguns álbuns são marcantes como Abbey Road dos Beatles, IV do Led Zeppelin ou The Wall do Pink Floyd, todos esses estão muitos distantes de serem os primeiros. Nessa linha, destaca-se o extraordinário Demons and Wizards, quarto disco da banda inglesa Uriah Heep, lançado em 1972.

É neste álbum que contém o mais famoso hit da banda, Easy Livin, um clássico reservado para amantes do rock and roll. Entretanto, a atmosfera alçada pela banda remete a níveis superiores com a sensacional Paradise, uma canção e deixar qualquer um de queixo caído. Nessa, as cordas dos violões, o baixo suavemente tocado acrescido da voz de David Byron que pluma a sonoridade. Isso tudo recheia essa canção que coloca o Uriah Heep entre as melhores bandas de rock de todos os tempos.

O Uriah Heep iniciou seus trabalhos em 1969 (embora a banda em si já existisse antes por volta de 1965 com outros nomes e variações na formação), mas atingiu o ápice na carreira com a formação clássica composta por Mick Box (guitarra)), David Byron (vocal), Ken Hensley (guitarra), Gary Thain (baixo) e Lee Kerslake (bateria).

Curiosamente, o primeiro disco Very 'Eavy... Very 'Umble, de 1970 saiu nos Estados Unidos com o mesmo nome da banda. Isso era muito comum acontecer, pois as bandas sempre focavam no mercado americano uma estratégia diferente. No entanto, o Uriah Heep nunca emplacou de fato por lá, voltando-se mais para a Europa e Japão.

Demons and Wizards é um álbum clássico que de uma banda diferenciada que vem atravessando gerações e que deve ser reverenciado e guardado em lugar especial na discoteca de qualquer amante do bom e velho rock and roll.

“Crusader”, um marco do heavy metal dos anos 80

Capa de Crusader: atmosfera medieval

ART ROCK MAGAZINE

Os anos 80 não foram muito bons para a cena roqueira. A década de 70, especialmente de19 70 a 1975 foram anos sagrados para o rock e todo o mundo. As bandas inglesas explodiram com grandes sucessos e uma criatividade musical jamais vista. É verdade que essas bandas vieram da década anterior, anos 60, mas os maiores sucessos foram compostos na de 70 inegavelmente; há exceções, é claro, destacadamente com Led ZeppelinBeatles e Rolling Stones. O rock exibia a sua melhor performance num cenário rico em inspiração, elementos escasso nos dias de hoje. Se antigamente usar cabelos compridos ou arrepiados era sinônimo de rebeldia, hoje são os sertanejos bregas ridículos que se vestem totalmente  fora da sintonia que a música “caipira” aceitaria como estilo.

Os anos 80 foram pobres talvez porque houve uma grande mudança nos costumes das pessoas. As grandes bandas que explodiram no passado até então, algumas delas já haviam sido extintas, outras esgotaram seus repertórios de criatividade, quero dizer, o que havia de bom a ser feito, havia sido feito!

O heavy metal passou a experimentar o teclado sintetizador, bateria eletrônica, o rock de arena passou a ser a vertente da década. Bom JoviEuropeMötleu Crue, PoisonSkid Roll, entre outras, passaram a ser os nomes das bandas mais ouvidas nas rádios e a sustentar a cena roqueira. Enquanto isso, Rolling Stones lançaram um de seus piores álbuns, implodindo uma banda revelando notadamente uma crise de identidade, logo os Stones , uma banda até então marcada por inúmeros sucessos...  Era um novo estilo, não necessariamente bom ou ruim, mas foram essas bandas que envidraçaram o rock e todo o mundo.
Mas uma banda, ao contrário de várias outras onde incluímos nesse lote o ACDC, lançou um de seus melhores álbuns, para muitos, o melhor. Crusader, disco lançado em 1984 pela banda inglesa Saxon, foi uma das preciosidades que o heavy metal guardou para entrar na história dessa famigerada década.

Liderado pelo vocalista Biff Byford,  Crusader foi 6º álbum do Saxon, que gravou o 1º, homônimo, em 1979. O Saxon sempre usou aura medieval, radicada numa temática que o próprio Crusader foca com toda a originalidade. O disco começa com The Crusader Prelude, uma introdução com cavalos andando, relinchando e tormentas mostrando o que restou de uma grande batalha cruzada. A música Crusader nem é tão extrema assim como a capa do disco pode sugeri, mas o que mais a marca é a marcação e o peso das guitarras. É uma música cadenciada e muito gostosa de ser ouvida. Mas o disco em si não é só isso, outras músicas chamam muito a atenção pela suavidade e clareza do som, como Salling To America, um hit embalado por um contrabaixo marcante e com uma guitarra-base que arranha a música o tempo todo, além de um solo mágico que tempera a música dando-lhe um gosto todo especial. Quanto a Do It All For You, um clássico heavy metal que ficaria ainda melhor se ouvida no cume da mais alta montanha bretã.

Crusader é um disco sensacional, peça obrigatória na discoteca de qualquer amante de rock. A gravadora EMI lançou uma edição especial comemorativa remasterizada com nove bônus. A edição original contém 10 faixas. Essa nova edição, que é inglesa e importada pode ser encontrada nas lojas especializadas por aproximadamente R$ 70,00. Márcio Paula Moraes

A nova estética das histórias em quadrinhos

Cena do Filme Batman - O Retorno:
As HQs invadiram as telonas.

ART ROCK MAGAZINE

Nos estados Unidos, a indústria das HQs é frenética. Um mercado que movimenta milhões de dólares anualmente. Mas não só com as vendas das revistas. Há uma cena maior, isto é, feiras, licenciamentos de todos os tipos que conquistam pessoas de todas as idades. Vale dizer que ultimamente, a indústria cinematográfica tem reservado  espaço vip para reprodução de filmes baseados nos personagens da Marvel e DC Comics.

Os quadrinhos ganharam novos traços e características. Se antes as personagens eram quase que na totalidade masculinos, hoje não há apenas uma inversão, mas um acréscimo de outras personagens (femininos) que revelam uma ideologia infiltrada nesse segmento da cultura de massa. A mulher passa a ser vista não apenas como uma reprodutora indefesa e dona do lar, mas conquistadora de seus direitos e participativa na sociedade política e econômica. Se toda arte é política, naturalmente, as HQs não se eximem disso.  Dessa forma, consequentemente, há muita ideologia nas HQs. Os grandes super-herois de alguma forma sempre se mantém na linha a justiça vigente, que rege as sociedades ocidentais, são os baluartes da justiça institucionalizada, mas não das desigualdades sociais. Contra isso não há poder que dê jeito! Não há um superman para isso...

Personagens revê o papel da mulher
Há também um detalhe muito curioso acerca dos quadrinhos que diz respeito à ambiguidade de toda produção cultural, isto é, ao mesmo tempo em que leva à consciência; serve também à alienação. Tema esse abordado com toda propriedade pelo escritor italiano Umberto Eco no livro Apocalípticos e Integrados, onde o autor discute as duas tendências dos intelectuais diante dos fenômenos de produção de massa: os apocalípticos, defensores de uma cultura de elite, denunciam a cultura de massa como forma de alienação e massificação; e os integrados, ao contrário, a vêem como um fenômeno contemporâneo que deve ser considerado na sua novidade, não podendo ser avaliada com padrões válidos para outro tipo de produção intelectual.

Batwomen é lésbica
Note o quanto Bruce Wayne é diferente de Batman, quanto Clark Kent é diferente de Superman. Essa duplicidade de alguma forma favorece a identificação do leitor com o herói, o homem moderno recalcado que um dia sonha em ser o herói.

Outro detalhe é o racismo nas HQs. Repare que não há herois negros. No passado, quando muito, eram personagens terciários que apareciam nas histórias. Hoje, além das personagens femininas de grande porte, a DC criou o Batwing, um “batman negro” patrocinado pelo próprio Bruce Wayne que serve à justiça na África. O homossexualismo também está presente. A personagem Kate Kane, Batwoman, é lésbica. Selina Kyle, a Mulher-Gato, mantém uma relação paralela com Lola, sua parceira, que morre assassinada em “A Sombra do Batman” nº2. E é assim que novas ideologias se incorporam sutilmente na indústria cultural. Márcio Paula Moraes


“Batman – Gritos na Noite”: uma ficção real


ART ROCK MAGAZINE

“Faz algum tempo que Batman deixou de ser herói de aventura ingênuas e caricaturais para atuar no universo trágico e realista do cotidiano das grandes cidades, sempre representadas pela fictícia Gothan City.
Sinal dos tempos. Reflexo de uma época em que até mesmo os heróis entenderam que lutam uma batalha sem fim... mas continuam lutando.
Em Gritos na Noite, o Cavaleiro das Trevas mergulha fundo numa das mais amargas tragédias contemporâneas. Ao seguir a trilha de uma série de assassinatos tão brutais quanto intrigantes, Batman penetra em regiões sombrias que jamais conheceu. E percebe que existem crimes que nem mesmo ele pode solucionar.
Esta história pode ser ficção, mas a tragédia que a inspirou não é.”

Última página:o grito de um morcego perturbado
O texto acima é uma sinopse de Gritos na Noite, série em duas edições publicada pela então Abril Jovem em 1993 que traz uma das mais perturbadoras histórias de Batman. Como diz a sinopse, embora tudo seja ficção, os fatos que a inspiraram não os são.

O texto escrito por Archie Goodwin e a arte elaborada por Scott Hampton traz essa união assombrada que assola a todos que é a violência. Gritos na Noite poderia ser apenas mais uma história em quadrinhos como tantas outras, mas não é. Os autores se utilizam de um meio pop fictício para resenhar sobre o tormento vivido por sabe Deus quantas crianças e adolescentes mundo afora que sofrem de sucessivos abusos sexuais das pessoas pelas quais deveria protegê-las.

Gritos na Noite é uma história tensa e amarga que sonda a mente das pessoas mais perturbadas emocionalmente. Por que um pai violentaria o próprio filho? Essa aguda questão é uma das quais Batman não conseguirá resolver, conforme o volume 2 dessa história sugere.

Gritos na Noite é um passeio de terror pela mente humana, um teste psicossocial que leva o leitor a refletir sobre as mais perversas atrocidades que o ser humano é capaz de fazer sem demonstrar nenhum tipo de remorso ou arrependimento. Goodwin e Hampton dão vida a uma ficção ao tratar de assuntos presentes em qualquer sociedade como crimes em séries, abusos sexuais (em família), violência doméstica, etc. Esta história em quadrinhos reproduz o que assistimos nos jornais diariamente. Nela, o próprio comissário Gordon, perturbado pelo estresse que o ronda, tem uma atitude extremamente violenta com seu filho a ponto de deixá-lo perplexo e terrivelmente assustado. O caso também revela o comprometimento de seu casamento com Bárbara desgastado pelo nervosismo e a depressão de Gordon. É curioso notar como esses fatos estão presentes em nossa sociedade. Antes fosse apenas ficção! 

Diante desse quadro, Batman se vê atormentado, impossibilitado de dar fim a tudo isso e, ao mesmo tempo, fica obstinado na luta a combater os piores crimes de uma Gothan City sombria e condenada. Batman, aqui, representa a voz calada e reprimida, impotente diante dos anseios do oprimido; o grito que ninguém irá ouvir, é sufocante.

Batman – Gritos na Noite é uma das raras HQs que retrata a realidade em suas páginas. Uma edição que vale a pena ler e reler, e acima de tudo refletir sobre o que somos e o que fazemos em sociedade. Márcio Paula Moraes

Com a palavra, Jimmy Page

"De acordo com os padrões atuais, eu bebia em excesso - porque hoje ninguém bebe de verdade..."

Jimmy Page à revista Rolling Stone

domingo, 26 de agosto de 2012

Elvis, o personagem mais importante do nosso tempo


MARCELO MOREIRA

  
Elvis Presley não criou o rock, nem mesmo o formatou, mas sem ele o gênero jamais teria se tornado o que é hoje. São raros os artistas que conseguem se transformar em sinônimo de algo. Alguns são a verdadeira personificação de um instrumento musical, como o guitarrista Jimi Hendrix . Elvis é sinônimo não só de rock, mas de toda uma transformação social que assolou o Ocidente a partir dos anos 50.

Nenhuma outra celebridade ou figura histórica imprimiu sua marca tão forte em tão pouco tempo. Foram apenas quatro anos de vida a mil em alto nível, mas o mundo do entretenimento e a cultura ocidental nunca mais foram as mesmas.

De 1956 a 1960 Elvis fez de tudo na música e no cinema e deu o direcionamento para a criação e crescimento do entretenimento como negócio, equiparando a música (no caso o rock) ao tamanho do cinema norte-americano. Não é exagero dizer que o cantor é a pedra fundamental da cultura do século XX.
Após servir ao exército norte-americano por mais de um ano, Elvis retomou a carreira, só que mais domesticado e mais inserido no marketing de entretenimento de massa. A música passou ao segundo plano, com o cinema de qualidade duvidosa tomando quase todo o seu tempo.

Os álbuns foram rareando, assim como a inspiração e as performáticas apresentações. Tudo piorou quando os ingleses resolveram reclamar um lugar no banco da frente, quando os Beatles chegaram com tudo. Elvis Presley tentou respirar e foi atropelado em seguida pelos Rolling Stones e pelos Beach Boys.

O mundo mudava muito rápido e o rei do rock continuava tateando em busca de novos caminhos quando Bob Dylan estourou de vez e mais ingleses impertinentes se apossaram das paradas, como The Who, The Animals, The Kinks, The Yardbirds, Cream e um tal de Jimi Hendrix.

Quando finalmente Elvis saiu do retiro e decidiu voltar com tudo à música, em 1968, soava como um músico datado, um artista de outra era, apesar da reverência e do imenso respeito que todos devotavam a ele.
Se o conceito de “dinossauro do rock” existisse naquela época, seria perfeitamente aplicável neste caso. Elvis já era lenda, mas começou a ser tratado por parcela importante do mercado como algo ultrapassado, no mesmo balaio dos então esquecidos grandes nomes do jazz e do blues que ainda insistiam em se manter na ativa – gente fraquinha como B. B. King, Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Miles Davis…
Seja como for, os especiais de TV de 1968 e dos anos seguintes reacenderam parte do interesse na música do rei do rock, reapresentando-o a uma geração roqueira preferia nomes mais contemporâneos e que considerava a música dos pioneiros como “coisa do século anterior”.

A reverência continuou, mas o mercado foi inclemente e exilou o rei do rock nos cassinos de Las Vegas, colando um inacreditável rótulo de artista ultrapassado e decadente – e o pior é que Elvis não reagiu: resignado, aceitou ser uma caricatura de si mesmo até a sua morte, em agosto de 1977, aos 42 anos.
O homem que personificou o rock e que fez com que o gênero musical mudasse a história cultural da humanidade foi engolido por sua criatura. Foi incapaz de lidar com a avalanche de energia, intensidade e criatividade proporcionadas pelo rock.

O personagem Elvis se tornou muito maior do que qualquer um poderia imaginar e dominou de tal forma a vida do ser humano Elvis Aaron Presley que o aprisionamento a uma vida irreal era inevitável, mesmo que os tempos indicassem claramente decadência artística e criativa.

Elvis foi o personagem do nosso tempo. Impossível pensar em uma representação melhor.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

U2 completa 35 anos palcos, mas sem perspectivas.



MARCELO MOREIRA

Um baterista enfezado e com cara de mau queria porque queria ser punk aos 16 anos de idade e decidiu montar uma banda na cozinha da sua casa. E decidiu que ele seria o líder e que mandaria em tudo, escreveria as músicas, letras e escolheria o figurino. Colocou cartazes na escola procurando guitarristas, baixista e cantor.

Só três atenderam ao chamado. Para seu azar, aquele moleque feio e com cara de mais enfezado ainda decidiu naquela cozinha minúscula que ele seria o líder e que definiria o conceito da banda. Os outros dois concordaram. “Fui líder da minha banda por aproximadamente cinco minutos”, costuma dizer com uma ponta de sarcasmo Larry Mullen Jr, o baterista do U2.

Foi na cozinha da casa dele, em Dublin, em 1976, que Paul Hewson assumiu as rédeas do pretenso grupo punk irlandês qiue se tornaria um gigante do mercado musical dez anos depois e a única banda a rivalizar em venda de ingressos e megalomania com os Rolling Stones 20 anos depois. Hewson logo em seguida o nome artístico de Bono Vox. Em 1977, o quarteto finalmente estrearia nos palcos e começaria a se tornar profissional.

O quarteto completa 35 anos de atividade ininterrupta nos palcos e sem mudança de formação de forma discreta. Não há nada programado para lembrar a data – pelo menos nada anunciado até agora.

O baú de preciosidades aos poucos vem sendo esvaziado desde 2000 com o lançamento de coletâneas com material inédito e reedições de álbuns dos anos 80 com CDs bônus. O que esperar então da banda para este ano.

Jornais irlandeses especulam sobre a possibilidade de lançamento de shows raros da banda nos anos 80 e 81 em áudio e DVD. Sabe-se que esse matrial existe e que é praticamente inexplorado, justamente a fase mais “punk” e raivosa do U2.

Ainda que as apresentações daquela época retratem o quarteto com muita energia, mas ainda sem aquela identidade que faria do U2 um monstro do rock após “War” e “Unforgettable Fire”, são registros históricos valiosos.

Ali os garotos tentavam superar a decadência do movimento punk elevando o volume dos amplificadores e buscando uma alternativa às letras de contestação sem perspectivas de algumas das bandas da época. Estava claro para eles que o Clash era o caminho, em termos líricos, e foi nas extensas turnês daquele biênio que o U2 moldou o som e os temas que viriam a predominar nos três álbuns após “October”.

Os colecionadores e fãs mais ardorosos já sabem que pelo menos duas apresentações de 1981 – em Amsterdã, na Holanda, e em Toronto, no Canadá – têm qualidade ótima de áudio, mas a dúvida é se há imagens decentes destes shows.

Outra alternativa seria lançar, de forma oficial, em CD, com qualidade digital, o LP pirata “2 Sides Live”, gravado ao vivo no Paradise Theatre, em Boston, nos Estados Unidos, em 6 de março de 1981. Dessa época, é o melhor bootleg, com qualidade boa de áudio. Mas a dúvida persiste: foi registrado em vídeo? Se foi, esse vídeo, tem qualidade?

Alheia a isso, a banda está oficialmente de férias neste momento, embora Bono tenha afirmado à revista Rolling Stone norte-americana em dezembro passado que logo os trabalhos de composição para um eventual novo álbum começariam, mas que também haveria a possibilidade de a banda chegar ao fim por “falta de perspectivas”.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O ano dos cinquentenários no rock inglês



MARCELO MOREIRA

Os Rolling Stones não estão fazendo muita questão de comemorar os 50 anos de criação da banda neste ano, tanto é que inventaram uma conversa de que o cinquentenário tem de ser comemorado em 2013, a data verdadeira – Charlie Watts entrou na banda somente no começo de 1963. Mas o fato é que Jagger, Richards, Watts e Wood continuam sendo a banda de rock mais antiga em atividade ininterrupta.

Se os Stones fingem não dar boa para a data, outras bandas pretendem comemorar. É o caso do Status Quo, gigante britânico dos anos 60 e 70 que mistura rock pesado e o típico boogie woogie norte americano.

Com apenas uma interrupção das atividades entre 1984 e 1986 – a banda chegou a acabar –, o Quo decidiu comemorar seu cinquentenário com a reunião da formação original: Francis Rossi e Rick Parfitt (guitarras e vocais), Alan Lancaster (baixo) e John Coglan (bateria). A última vez que os quatro tocaram juntos foi em 1981, quando do lançamento e turnê do álbum “Never Too Late”, de 1981.

A formação atual, no entanto, continuará a coexistir com o agrupamento nostálgico, que vai gravar CD com músicas inéditas e realizar uma turnê inglesa ainda neste ano.

Por outro lado, quem tem pouco a comemorar em seu cinquentenário são os Kinks. Outra instituição britânica e também gigante do rock – bem maior do que o Quo –, o grupo está parado desde 1996, depois de mais uma interminável desavença entre os irmãos Ray e Dave Davies.

Entretanto, parece que desta vez a coisa é bastante séria, pois desde então os irmãos não se falam. Ray Davies lançou apenas três álbuns nos últimos 15 anos e sempre que pode descarta qualquer tipo de reformulação da banda. Não bastasse isso, diz ignorar o cinquentenário de fundação.

Gestado em 1962 e moldado definitivamente em 1964, os Kinks se tornaram os principais cronistas e críticos do cotidiano inglês dos anos 60 e 70. Ray e Dave, acompanhados do baterista Mick Avory (que chegou a tocar por muito pouco tempo no início dos Rolling Stones, para ajudar o amigo Brian Jones até que Charlie Watts decidisse entrar para a banda) e do baixista Pete Quaiffe, eram mestres em criar melodias grudentas e harmonias complexas em composições que mesclavam o pop das emissora de rádio com as tradições folk da canção típica inglesa.

As letras de Ray desde cedo se tornaram o diferencial da banda em relação aos então concorrentes diretos – Stones, Who e Animals, todos bebendo direto na fonte do blues e do rhythm and blues.

Ele foi o primeiro compositor britânico a investir pesada e prioritariamente em pequenas histórias, ora dramáticas, ora irônicas, tudo sempre temperado com um humor tipicamente inglês. Tal fato leva muitos historiadores da música a afirmar que a banda nunca foi tão grande quanto seus concorrentes diretos por ser “excessivamente inglesa”.
Apesar disso, Ray Davies e os Kinks criaram uma penca de clássicos dos mais importantes do rock, como “You Really Got Me”, “All Days and All of the Night”, “Tired of Waiting for You”, “Lola”, “Where Have All the Good Times Gone”, “Celluloid Heroes” e muitos outros.

Outro monstro inglês também está completando 50 anos da data de sua gestação, embora tal fato cause irritação em seu líder. The Who começou a surgir em 1962 quando o guitarrista Pete Townshend entrou para a banda The Detours, liderada por um guitarrista baixinho e briguento chamado Roger Daltrey. Townshend chegou a tocar em algumas bandas de jazz e em uma delas conheceu um garoto chamado John Entwistle, que tocava instrumentos de sopro e eventualmente guitarra e baixo.

Diante da indigência musical dos Detours, Townshend foi tomando conta do pedaço e dois meses depois convidou Entwistle para ser o baixista, após ter convencido Daltrey a muito custo.

Tanto Townshend como Daltrey desconversam sobre o assunto cinquentenário em 2012. Ambos consideram 2014 o ano verdadeiro e “oficial” dos 50 anos.

Foi naquele ano que os Detours se tornaram The Who, depois High Numbers para se decidirem por The Who assim que acertaram a gravação do primeiro single e a entrada do baterista Keith Moon, então às vésperas de completar 18 anos, no lugar do cansado e pouco entusiasmado Doug Sanden, que era bem mais velho que os outros integrantes.

No meio musical de Londres, dá-se como certa a existência de planos em andamento pelo Who para comemorar com estilo o cinquentenário da banda em 2014, planos esses mantidos em sigilo – daí o mau humor dos integrantes em comentar o suposto cinquentenário neste ano.

Seja como for, aparentemente nada indica que o Who esteja planejando algo. Townshend está às voltas com o lançamento de sua autobiografia, adiado para o segundo semestre, e com a ópera-rock “Floss”, que ele não sabe ainda se vai lançá-la em 2013 como obra solo ou da banda.

Daltrey, por sua vez, irritado com a parada proposta por Townshend, se uniu a Simon, irmão de Pete e guitarrista de apoio do Who, para estender a turnê europeia e norte-americana que reproduz na íntegra a ópera-rock “Tommy”, clássico do Who de 1969.

Supersister, da psicodelia ao progressivo



MÁRCIO PAULA MORAES

Não, Beatles não. Tem muito Beatles no pedaço. Com o show de Paul McCartney no Brasil recentemente, falou-se muito em Beatles. Bom, quem sabe Rolling Stones, mas eles também estão em todo lugar. Keith Richards acabou de lançar seu livro autobiográfico Vida, e todo mundo falou disso. Ah, sobre David Bowie, então. Caramba! Acabou de sair uma biografia dele. Os jornais exploraram o assunto...
A banda em ação em 1971, na Holanda
Mas embora seja amplamente possível escrever sobre todos eles mesmo depois de tanta exposição, pensando mais um pouco decidi abordar um aspecto que dificilmente é abordado pela mídia convencional: o desconhecido. O que não faltou nos anos 60s, 70s foi ótimas bandas serem sugadas pelo sucesso arrasador dos gigantes Beatles, Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd etc. Essas bandas fizeram tanto sucesso que as outras bandas não receberam a atenção devida das pessoas. Ainda mais se essas outras não estivessem na Inglaterra. Quero falar de uma banda holandesa chamada Supersister. Você conhece? 

A banda foi formada entre 1967 e 1968 e os integrantes da primeira formação são Robert Jan Stips - teclados, vocais, Marco Vrolijk – bateria/percussão, Sacha van Geest – flauta, Ron van Eck – baixo. Sacha Geest morreu em 29 de julho de 2001 devido a um ataque cardíaco. Para os demais integrantes do Supersister, o fato decretou o fim da banda.

Naquela época, algo parecido com o Supersister era o Jethro Tull. A presença de encontros progressivos com psicodélicos era uma característica muito marcante nas duas bandas. Se você nunca ouviu falar do Supersister, mas gosta de Jethro Tull, vai gostar também do Supersister. Difícil será encontrar alguma loja que venda os CDs. A ART ROCK, a Blue Sonic, ambas localizadas na Galeria Nova Barão. Uma outra banda de origem holandesa é o Focos, mais famosa do que o Supsersister. Assim como o Focos, o Supersister também flerta com o rock erudito. Com baixo tocado em escalas longas, marcantes, ritmos quebrados na percussão, a música do Supersister é bastante complexa principalmente pela inserção do solo com a flauta, do saxofone e do piano. É tudo muito diferente, e rico! Vale à pena conferir. 


Serviço
Galeria Nova Barão - São Paulo - SP 
Rua Barão de Itapetininga, 37 - [piso superior] - loja 48 e 37 – Centro
ART ROCK: art.rock70@yahoo.com.br / Tel: (11) 3214- 2555 (somente aos sábados)
Blue Sonic: (11) 3151-4524 
http://www.supersister.nl/

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Pete Townshend lançará biografia em 2012



Townshend e a ação do tempo
MARCELO MOREIRA

Um livro de mais de 30 anos de confecção finalmente vai chegar às livrarias. As memórias de Pete Townshend, guitarrista do The Who, parece que finalmente estão prontas. De acordo com a versão americana da revista Rolling Stone, o músico fechou um acordo com a editora inglesa Harper Collins para lançar seu livro em 2012.

Segundo a editora, a autobiografia de Pete estará nas prateleiras no segundo semestre de 2012. “Nos anos 1970, Pete Townshend questionou em uma famosa música ‘quem é você?’. Agora, em seu livro de memórias, gerações de fãs finalmente terão essa resposta que vem sido aguardada há tanto tempo”, afirmou David Hirshey, executivo da editora, em texto da Rolling Stone.

Townshead começou a trabalhar seriamente na sua autobiografia em meados dos anos 1990, tendo como base milhares de anotações escritas entre 1976 e 1980. O projeto ganhou fôlego quando ele foi acusado pela polícia britânica em 2003 por acessar sites de pornografia infantil – o músico afirmou que se tratava de material de pesquisa para o livro.

“Eu tenho escrito sobre a minha infância há sete anos. Eu creio que fui abusado sexualmente aos cinco ou seis anos quando estive sob os cuidados da minha vó materna, que tinha sérios problemas mentais”, afirmou na época. “Eu não me lembro claramente do que aconteceu, mas meu trabalho pretende desvendar essas sombras. Algumas das coisas que vi na internet me ajudaram a compor o livro.”

Townshend criou um blog e passou a postar partes da sua própria história. “A espinha dorsal está completa, e toda a pesquisa foi feita”, disse o guitarrista à revista norte-americana. “E porque minha vida criativa e profissional está tão ativa, eu sinto que nunca vou chegar aos tempos presentes, a não ser que eu me aposente apenas para escrever. Me aposentar, simplesmente para escrever, quando eu já sou um escritor, é uma contradição.”

O blog não existe mais, assim como Townshend praticamente sumiu do Twitter e do Facebook. Seus problema de audição se agravaram nos últimos cinco anos, o que compromete o futuro do Who. A última turnê da banda aconteceu em 2009. No ano passado, eles se apresentaram no intervalo do Super Bowl.

Neste ano, Townshend e o vocalista Roger Daltrey, os dois remanescentes da formação original, tocara juntos duas vezes, em eventos beneficentes em prol da Teenage Cancer Trust, patrocinada pelo cantor. Um deles foi em janeiro, quando o Who tocou em Londres tendo como convidados Jeff Beck, Bryan Adams e Debbie Harry (Blondie).

Oficialmente, é a última apresentação da banda até o momento, após 47 anos de carreira (com sete de paralisação entre 1982 e 1989).

Em março, Daltrey fez um show com sua banda solo também em Londres, e Townshend subiu ao palco como convidado especial para tocar em duas músicas. Após essa apresentação, boatos deram conta de uma desavença entre os dois a respeito dos músicos que participariam de uma eventual turnê no final deste ano, coisa que foi desmentida sem muito vigor pelos dois.

O som espinhoso do Cactus



MÁRCIO PAULA MORAES

A banda durou muito pouco tempo, de 1970 a 1972, mas enquanto esteve na ativa brilhou e produziu importantes álbuns para a história do rock n roll. 

Formada de uma derivação de músicos vindos também de outras bandas como o Vanilla Fugde, Buddy Miles Express, a formação original do Cactus era composta por Carmine Appice (bateria), Tim Bogert (baixo), Rusty Day (vocal) e Jim McCarty (guitarra). McCarty era da cidade de Detroit (EUA), e muito ligado ao blues – gênero que deu ao Cactus uma grande semelhança com o Led Zeppelin.

O som do Cactus oscila entre o rock bruto como em Parchman Farm e o blues como na deliciosa faixa NoNeed To Worrry, ambas as músicas do primeiro álbum homônimo da banda, lançado em 1970. Dado curioso é que a capa deste disco foi censurada no Brasil pelos censores militares, pois eles entendiam que a foto que ilustrava a capa a capa fazia apologia ao sexo, a um pênis, e foi considerada inapropriada. Foi preciso refazê-la para que o disco fosse comercializado no país.
Capa do 1º disco da banda
Em vários momentos o Cactus se assemelha ao Led Zeppelin. Talvez até por uma obsessão americana de ter sempre alguma banda que fizesse frente às inglesas. Vale lembrar que o foi com esse espírito que surgiram outras bandas (muito boas por sinal), como o Grand Funk e o Monkees, essa descaradamente produzida pelos meios midiáticos americanos para ser a opção americana aos Beatles. A banda até teve bons momentos enquanto durou seu programa de tevê na década de 60, nos Estados Unidos, mas francamente, compará-la com Beatles é covardia!

A identificação do Cactus com as bandas inglesas era latente, não só com o Led. Em vários momentos de Oleo, a banda faz lembrar o período dos anos 60 dos Rolling Stones, principalmente a gaita, soprada por Rusty Day, comum nas músicas Stoneanas.

Diante de uma onda avassaladora do rock inglês nas décadas de 60 e 70, parecia que a regra era se alimentar de fontes sadias, e as bandas americanas para fazer frente às inglesas, que arrebentavam pelo mundo afora, era mesmo tentar fazer igual aquilo que estava dando certo. Ao procurar esse assemelhamento com o Led Zeppelin e incutir elementos do blues à sua música o Cactus passou a integrar o grupo de bandas que vinha trabalhando esses conceitos há muito tempo.

O segundo álbum (One Way... Or Another) lançado em fevereiro 1971 também foi muito bem aceito pelo público e mídia, mas dava sinais que a banda carecia de genialidade para criar. Nele consta um grande sucesso de Little Richard, de1956, Long Tall Sally (também gravada por Elvis Presley). No mesmo ano, em outubro, o Cactus se arriscaria com seu terceiro e último álbum com a formação original completa, Restrictions. 

Já sem o guitarrista bluesman Jim McCarty, a banda lançou Ot ‘n’ Sweaty (1972), que dispensa comentários, uma vez que, meses depois a banda se dissolveu.

Em 2006, envelhecida, a banda se reuniu e lançou seu quinto e último álbum, Cactus V, porém com quase todos os integrantes da formação original, trata-se de um belo álbum, mas desprezado pelos próprios fãs da banda que preferem o som antigo. O vocalista Rusty Day morreu aos 36 anos apenas, em junho de 1982.

Cactus foi uma das poucas bandas americanas que entrou para a história do rock num dos períodos mais difíceis, pois para fazer frente ou igualar-se às bandas inglesas não era tarefa fácil, era preciso ser bom muito, mas muito bom. E o Cactus era.

Quem criou o heavy metal? Acerta quem diz Blue Cheer




MARCELO MOREIRA

Quem inventou o heavy metal? Essa é a pergunta mais inconveniente do rock, quase tão infame como aquela básica: “Qual a origem do universo? De onde viemos”? As teorias são muitas, mas falta credibilidade para quase todas elas. Então a questão vira briga de arquibancada, com zero de razão e tudo de paixão.

O lugar comum diz que o surgimento do Led Zeppelin, em outubro de 1968, é o inicio do heavy metal. Na mesma época, os Beatles soltavam o famoso “Álbum Branco”, que trazia a obra-prima “Helter Skelter”, que muitos consideram a primeira música pesada da história.

Os radicais preferem cravar 13 de fevereiro de 1970 como a data de nascimento do metal, dia em que foi lançado “Black Sabbath”, álbum intitulado da banda homônima de Ozzy Osbourne e Tony Iommi.

Já os “arqueólogos” do rock gostam de citar o lançamento do compacto “You Really Got Me”, dos Kinks, no começo de 1964, como o marco zero da música pesada – assim como “I Can’t Explain”, do Who, do final deste mesmo ano, nascia o marco zero do punk rock.

Eu prefiro seguir uma outra linha, até em homenagem a um baixista que morreu em 2009 e que integrou aquela que provavelmente foi a primeira banda integralmente pesada dos anos 60 – e do rock, em geral.

O Blue Cheer é cria do baixista Dickie Peterson e surgiu em San Francisco, na Califórnia, em 1966, bem no comecinho da era hippie e do flower power. Só que, radicais como eram, o então quinteto já adotava uma postura metaleira e tocava muito alto, com muita distorção, a ponto de destroçar os amplificadores.

As letras comuns do rock, falando de garotas, carros, bebedeiras e sacanagem em geral, conviviam com os temas soturnos, negativos e pesados. E foi como um trio que no fim de 1967 gravaram rápido e lançaram em janeiro de 1968 o primeiro álbum, “Vincebus Eruptum”, que trazia uma versão para “Summertime Blues”, de Eddie Cochrane, imortalizada na versão pesadíssima e suja do Who ao vivo.

A versão do Blue Cheer era mais pesada ainda, com toneladas de peso e muitos efeitos de guitarra. Peterson era o baixista e vocalista, sendo que a formação clássica era completada por Paul Whaley na bateria e Leigh Stephens na guitarra.

“Vincebus Eruptum” é considerado nos Estados Unidos como primeiro álbum de heavy metal da história. Peterson nunca escondeu que suas influências principais foram o Jimi Hendrix Experience – especialmente a apresentação do Monterey Pop Festival, em 1967 – o Who e o Cream.

Dickie Peterson costumava dizer que o Blue Cheer não fazia nada demais. “Nós pegávamos o blues e o distorcíamos até se tornar irreconhecível. Parece que fomos os primeiros a fazer isso com tamanha competência…”

Seja por desconhecimento, ou mesmo por falta de informação – na verdade, uma checagem de datas –, alguns críticos ingleses citam de vez em quanto “In-A-Gadda-Da-Vida”, o segundo álbum de estúdio da banda Iron Butterfly, lançado em meados de 1968.

Tanto o álbum como a música-título são bastante pesados, mas ainda assim perdem por pouco para o Blue Cheer – diz a lenda que o vocalista do Iron Butterfly, Doug Ingle, estava tão bêbado quando gravou a música “In the garden of Eden”, que a faixa 6 passou a se chamar “In a gadda da vida”.

Seja como for, o primeiro álbum do Blue Cheer, “Vincebus Eruptum”, merece uma audição para conferir o verdadeiro marco zero do heavy metal.

Participando ativamente de projetos e programas de apoio à pesquisa sobre a doença em busca de novos tratamentos, abandonou definitivamente o mundo da música em 1989, já impossibilitado de tocar. Morreu em 1997, aos 51 anos.

Humble Pie e a genialidade de Steve Marriott




Momentos felizes: Marriot ao centro
MARCELO MOREIRA

A entrevista coletiva do guitarrista inglês Peter Frampton terminara havia minutos em um hotel em São Paulo, no ano passado. Muito solícito, foi cercado no saguão por um alguns fãs e jornalistas ávidos por respostas. Um dos jornalistas não teve pudor e sacou de uma sacola um LP doHumble Pie, “As Safe as Yesterday”, de 1969, o disco de estreia da banda.
 
Frampton pareceu surpreso, mas na verdade estava atônito. Fazia tempo que ele não via alguém lhe mostrar um álbum de sua segunda banda. Paralisado por alguns momentos, pegou o álbum de vinil, observou-o e só depois o autografou. Quando devolveu ao dono, disparou: “Excelente álbum, som fantástico. Toquei muito nele. Longa via à memória de Steve Marriott, que morreu há 20 anos.”

 ex-guitarrista e vocalista do Small Faces e do Humble Pie morreu no dia 20 de abril, em 1991, em sua casa no interior da Inglaterra. Exausto após uma viagem de avião vindo dos Estados Unidos, deitou na cama para descansar, mas acabou cochilando com um cigarro aceso entre os dedos. A casa pegou fogo.

 Para marcar as duas décadas sem o grande guitarrista, as gravadoras Immediate e A&M pretendiam reeditar em CD toda a obra do Humble Pie. O projeto não foi para a frente. Em vez disso, chega ao mercado no mês que vem uma reedição de “Natural Born Boogie”, uma excelente coletânea de gravações feitas para a rádio BBC de Londres entre 1969 e 1973.

 A Decca Records, que detém o catálogo dos Small Faces, planeja reeditar duas coletâneas desta banda: “The Autumn Stone” e “The BBC Sessions” até o final do ano.

Bom guitarrista e carismático, o jovem Martiott formou os Small Faces para tocar covers de rhythm & blues norte-americanos e clássicos rockabilly. O baixista Ronnie Lane, seu companheiro de banda e exímio compositor, perturbou-o para que criassem material próprio aproveitando a voz aguda e potente de Marriott.

A mesca de rock dos anos 50 e rhythm & blues acabou dando certo e foram contratados ainda em 1965 pela Decca como uma resposta ao Who e aos Animals, que estavam estourando na mesma praia. E, assim como o Who, os Small Faces fora adotados pelo movimento mod, fanáticos pela música negra dançante dos Estados Unidos e que caprichavam no visual elegante, com terninhos e gravatas.

No ano seguinte, os amigos do Who – Kenney Jones, o baterista, substituiria Keith Mon na banda em 1979 – acabaram com essa história de símbolos dos mods e caíram de cabeça no rock and roll mais visceral. Os Small Faces ainda aguentaram até 1967 nessa patacoada, até que decidissem optar pela psicodelia e por letras mais abstratas, o que desagradou Ronnie Lane.


Em 1968 o quarteto entrou em declínio, ficando fora do topo das paradas na maior parte do tempo. Cada vez mais desinteressado, Steve Marriott começou a fazer jams com muitos músicos de Londres e começou a ficar fascinado com o blues pesado do Free, de Paul Rodgers.

 No final do ano comunicou o Small Faces que estava fora e convenceu o novo amigo, Peter Frampton, da promissora banda The Herd, a criar um novo grupo para tocar um rock mais pesado, algo entre Free Led Zeppelin. Em 1969 surgia o Humble Pie.

Ao mesmo tempo, o trio remanescente do Small Faces – Ronnie Lane, Kenney Jones (bateria) e Ian McLagan (teclados) – se uniu a Rod Stewart e ao guitarrista Ron Wood, demitidos do Jeff Beck Group. Estava formado o The Faces, de sonoridade mais pop e folk.

Humble Pie surgiu como um furacão e logo ocupou o lugar do Free no coração dos apreciadores de blues pesado – o quarteto de Paul Rodgers semrpe esteve envolto em conflitos internos e praticamente acabou em 1972. Mais entrosados do que nunca, Frampton e Marriott criaram verdadeiros clássicos do rock inglês, como “Natural Born Boogie”, “Wrist Job”, “Desperation” e “As Safe As Yesterday Is”.


 Mas não demorou para que o encrenqueiro Marriott começasse a implicar com Frampton, reclamando que oHumble Pie estava ficando pesado demais. Ele voltou a se interessar por soul music e rhythm and blues, enquanto que Frampton buscava algo mais acessível e pop, mesmo que fosse hard rock.

As brigas constantes causaram a saída de Frampton em 1972, logo substituído por Dave “Clem” Clemson, que também era bom cantor além de guitarrista. O redirecionamento musical da banda foi imediato, mergulhando fundo na soul music clássica. O público, no começo, aprovou, mas depois abandonou o Humble Pie, que encerrou as atividades em 1975.

Tentou recriar os Small Faces em 1977 com Jones e McLagan, que estavam parados desde o fim dos Faces, também em 1975. Mesmo sem Ronnie Lane, que recusou para continuar sua bem-sucedida carreira solo, a nova encarnação lançou os fracos “Playmates”, em 1977 e “78 in the Shade” em 1978.

 Novas decepções, novas brigas e novo fim. Marriott então parte para o desespero e tenta reformar o Humble Pie. Peter Frampton recusa, assim como o baixista Greg Ridley.

Clássico álbum da banda
 Ao lado do baterista original Jerry Shirley, contrata o vocalista e tecladista Bob Tench e o baixista Anthony Jones para gravarem “Go for the Throat” em 1980. Mesmo com as fracas vendas, ainda insistiram no ano seguinte com “On to Victory”, que teve desempenho pior ainda. O fim da nova encarnação do Pie era apenas uma questão de tempo.

 Nos anos seguintes Marriott montou bandas diversas para fazer shows solo pelo interior da Inglaterra e pela Alemanha, mas o máximo que conseguiu foi se tornar um cover de si mesmo. Pelo menos as reedições prometidas para este ano resgatam o verdadeiro talento de Steve Marriott.